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pathos - paixão, acontecimento
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pathos
VIDE Philokalia-Pathe
Tradição filosófica grega - pathos
Por isso Deus os abandonou às paixões (pathos) infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. (Rom 1:26)
Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o afeição (pathos) desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; (Col 3:5)
Não na paixão (pathos) da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus. (1Tes 4:5)
Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o afeição (pathos) desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; (Col 3:5)
Não na paixão (pathos) da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus. (1Tes 4:5)
Em grego, o termo significa literalmente aquilo que acontece, que se passa a uma pessoa ou coisa, uma experiência a que se submete passivamente; donde um apetite ou impulso, como raiva (orge), desejo (thymikon) ou inveja (pleonexia), que violentamente domina a alma (psyche). Muitos Padres a reconhecem como algo intrinsicamente mau, uma doença da alma: assim João Clímaco afirma que Deus não é o criador das paixões, que elas não são naturais, mas estranhas ao verdadeiro homem (A Escada Santa, Passo 26 FRANCÊS
Outros Padres, no entanto, vêem as paixões como impulsos originalmente postos no homem por Deus, e assim fundamentalmente boas, embora distorcidas pelo pecado (hamartia) (por exemplo, Isaías o Solitário). Neste caso, elas devem ser educadas, não erradicadas; transfiguradas e não suprimidas; usadas positivamente, não negativamente. Philokalia-en
PASION (páthos): la pasión es aquella tensión que el alma "padece" con respecto de cuanto se le puede presentar como bien o como mal. Algunos padres tienden a ver las pasiones siempre como fundamentalmente malas, con enfermedades del alma y, por lo tanto, debe ser eliminadas radicalmente. Otros, sin embargo, sostienen que las pasiones son impulsos buenos, puestos por el Creador en el hombre, y que luego se pervirtieron con el pecado. En este caso, más que suprimir la pasión, se hablará de un retorno a su valor original, sustancialmente orientado hacia Dios y hacia la salvación. Naturalmente, este retorno no podrá producirse mediante una banal "reeducación" de las pasiones, sino mas bien mediante la reinserción de todo el hombre en Cristo, por medio del bautismo, los sacramentos y el camino concreto de una vida evangélica, con la mortificación de los miembros que se encuentran sobre la tierra (cf. Col 3:1-10).
Philokalia
- Nilo do Sinai ou o Asceta
- Discurso Ascético": Quando não somente nos refreamos de ações mundanas mas não as chamamos mais a nossa mente, atingimos a verdadeira tranquilidade (hesychia). Isto dá a alma a oportunidade de olhar às impressões previamente gravadas na mente (dianoia), e lutar (agon) contra cada uma e eliminá-la. Enquanto vamos recebendo novas impressões, nossa inteligência está ocupada com elas e então não é possível erradicar as antecedentes. Em consequência nossa luta (agon) para erradicar as paixões é inevitavelmente muito mais difícil, posto que estas paixões se tornaram mais fortes ao serem permitidas crescer gradualmente; e agora, como um rio caudaloso, afogam o discernimento (diakrisis) da alma (psyche) com uma fantasia (phantasia) após outra.
(Perenialistas))
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Tanquerey - Compêndio de Teologia Ascética e Mística
784. As paixões, no sentido filosófico do termo, não são necessária e absolutamente más: são forças vivas, muitas vezes impetuosas, que se podem utilizar para o bem como para o mal, contanto que as saibamos disciplinar e orientar para um fim nobre. Mas, na linguagem popular e em certos autores espirituais, emprega-se esta palavra em sentido pejorativo, para designar as paixões más. Vamos pois: 1. recordar as principais noções psicológicas sobre as paixões; 2. indicar os seus bons e maus efeitos; 3. traçar regras para o seu bom uso.I. A psicologia das paixões
Não fazemos aqui mais que relembrar o que se expõe mais longamente na Psicologia.
785. 1. Noção. As paixões são movimentos impetuosos do apetite sensitivo para o bem sensível com repercussão mais ou menos forte sobre o organismo.
a) Na base da paixão, há pois, um certo conhecimento (gnosis - episteme), ao menos sensível, dum bem esperado ou adquirido ou dum mal contrário a este bem; deste conhecimento (gnosis - episteme) é que brotam os movimentos do apetite sensitivo.
b) Estes movimentos são impetuosos e distinguem-se assim dos estados afetivos agradáveis ou desagradáveis que são calmos, tranqüilos, sem aquele ardor, aquela veemência que há nas paixões.
c) Precisamente porque são impetuosos e atuam fortemente sobre o apetite sensitivo, é que têm repercussão até no organismo físico, por causa da estreita união entre o corpo e a alma. Assim, a cólera faz afluir o sangue ao cérebro e distende os nervos, o medo faz empalidecer, o amor dilata o coração, o temor contrai-o. Nem em todos, porém, se apresentam no mesmo grau estes efeitos fisiológicos, que dependem do temperamento de cada um e da intensidade da paixão, bem como do domínio que cada qual adquire sobre si mesmo.
786. Diferem, pois, as paixões dos sentimentos, que são movimentos da vontade, e, por conseguinte, supõem conhecimento (gnosis - episteme) da inteligência e, com serem fortes, não têm a violência das paixões. Assim é que há amor-paixão e amor-sentimento, temor passional e temor intelectual. — Acrescentemos que no homem, animal racional, as paixões e os sentimentos se combinam muitas vezes, quase sempre, em doses variadíssimas, e que é pela vontade, auxiliada pela graça, que chegamos a transformar em nobres sentimentos as paixões mais ardentes, subordinando estas àqueles.
787. 2. O seu número. Enumeram-se geralmente onze paixões, que derivam todas do amor, como excelentemente demonstra Bossuet: «As nossas demais paixões referem-se todas unicamente ao amor que a todas encerra e excita».
1) O amor é a paixão de se unir a uma pessoa ou de possuir uma coisa que agrada.
2) O ódio é a paixão de afastar de nós qualquer coisa que nos desagrada; nasce do amor, neste sentido que odiamos o que se opõe ao que amamos. Assim, por exemplo, eu não odeio a doença, senão porque amo a saúde; não odeio uma pessoa, senão porque ela me põe algum obstáculo ã posse do que amo.
3) O desejo consiste em procurar o bem ausente, e nasce de amarmos esse bem.
4) A aversão (ou fuga) leva-nos a afastar o mal que se avizinha de nós.
5) A alegria não é mais que a fruição do bem presente.
6) A tristeza, pelo contrário, aflige-se e desvia-Se do mal presente.
7) A audácia (ousadia ou coragem) esforça-se por se unir ao objeto amado, cuja aquisição é dificultosa.
8) O temor impele-nos a fugir dum mal difícil de evitar.
9) A esperança tende com ardor para o objeto amado, cuja aquisição é possível, se bem que dificultosa.
10) O desespero nasce na alma, quando a aquisição do objeto amado parece impossível.
11) A cólera repele violentamente o que nos faz mal e excita o desejo da vingança.
As seis primeiras paixões, que têm origem no apetite concupiscível, são comumente chamadas pelos modernos paixões de gozo; as outras cinco, que se referem ao apetite irascível, denominam-se paixões combativas.
II. Os efeitos das paixões
788. Os Estóicos pretendiam que as paixões são radicalmente más e que, por conseguinte, devem ser suprimidas; os Epicureus divinizam as paixões e proclamam a altas vozes que é um dever segui-las. É o que os nossos modernos epicuristas chamam: viver a sua inda. O Cristianismo conserva o meio entre esses dois excessos: nada do que Deus pôs na natureza humana é mau. O próprio Cristo Senhor Nosso teve paixões bem ordenadas: amou não somente com a vontade, senão também com o coração e chorou sobre Lázaro e sobre Jerusalém, a infiel; deixou-se possuir duma santa cólera, sofreu o temor, a tristeza, o tédio; mas soube conservar essas paixões com o império da vontade e subordiná-las a Deus. Quando, pelo contrário, as paixões são desordenadas, produzem os mais perniciosos efeitos; é preciso, pois, mortificá-las, discipliná-las.
789. Efeitos das paixões desordenadas. Chamam-se desordenadas as paixões que tendem para um bem sensível proibido, ou até mesmo para um bem permitido, mas com demasiada sofreguidão e sem o referir a Deus. Ora, estas paixões desordenadas:
a) Cegam a alma, lançando-se para o seu objeto com impetuosidade, sem consultar a razão, deixando-se guiar pelo instinto ou pelo prazer. Ora, nisto há um elemento perturbador que tende a falsear o juízo e a obscurecer a reta razão. Como o apetite sensitivo é cego, por natureza, se a alma se deixa guiar por ele, cega-se a si mesma: em vez de se deixar conduzir pelo dever, deixa-se fascinar pelo prazer do momento. É como uma nuvem que a impede de ver a verdade; obcecada pela poeira que as paixões levantam, a alma já não vê claramente a vontade divina nem o dever que se lhe impõe e deixa de ser apta para julgar retamente das coisas.
790. b) Fatigam a alma e fazem sofrer.
1) As paixões, diz S. João da Cruz, «são como rapazes inquietos e descontentes, que sempre estão pedindo à mãe ora isto ora aquilo, e não acabam de ficar satisfeitos. E, assim como se cansa e fatiga o que cava por cobiça do tesouro, assim se cansa e fatiga a alma por conseguir o que seus apetites lhe pedem; e, ainda que o consiga por fim, sempre se cansa, porque nunca se satisfaz... E cansa-se e aflige-se a alma com seus apetites, porque é ferida, agitada e perturbada por eles, como a água pelos ventos».
2) Daqui um sofrimento tanto mais intenso quanto mais vivas são as paixões: porque elas atormentam a pobre alma, até serem contentadas, e, como o apetite vem com o comer, reclamam as paixões cada vez mais; se a consciência protesta, impacientam-se, agitam-se, solicitam a vontade para que ceda aos seus caprichos que incessantemente renascem: é urna tortura inexprimível.
791. c) Enfraquecem a vontade. Solicitada em sentidos diversos por essas paixões rebeldes, vê-se forçada a vontade a dispersar as próprias forças, que por isso mesmo vão enfraquecendo. Tudo o que cede às paixões, aumenta nelas as exigências e diminui em si as energias. Semelhantes às gomeleiras inúteis e vorazes que brotam do tronco duma árvore, os apetites que se não dominam, vão-se desenvolvendo e roubando força à alma, como os rebentos parasitas à árvore,. E não tardará o momento em que alma enfraquecida caia no relaxamento e na tibieza, disposta a todas as capitulações.
792. d) Maculam a alma. Quando esta, cedendo às paixões, se une às criaturas abate-se ao nível delas e contrai a sua malícia e as suas manchas; em vez de ser imagem fiel de Deus, torna-se imagem das coisas a que se apega; grãos de pó, manchas de lodo vêm embaciar-lhe a beleza e opor-se à união perfeita com Deus.
«Um só apetite desordenado, diz S. João da Cruz, ainda quando não seja de matéria de pecado mortal, basta para pôr uma alma tão escura, manchada e feia que de modo nenhum pode convir com Deus em qualquer união (íntima), até dele se purificar. Qual será, pois, a fealdade da que de todo está desordenada em suas próprias paixões e entregue a seus apetites, e quão distanciada estará da pureza de Deus! Não se pode explicar com palavras, nem ainda compreender-se com o entendimento a variedade de imundície que a variedade de apetites causam na alma...». Cada apetite depõe, a seu modo, a sua parte especial de impureza e fealdade na alma.
793. Conclusão. Quem quiser, pois, chegar à união com Deus, tem que mortificar todas as paixões, ainda as menores, enquanto são voluntárias e desordenadas. É que a união perfeita supõe que em nós não há nada contrário à vontade de Deus, nenhum apego voluntário à criatura e a nós mesmos. Tanto que, de propósito deliberado, nos deixamos extraviar por qualquer paixão, deixa de haver união perfeita entre a nossa vontade e a de Deus. Isto é, sobretudo, verdade das paixões ou apegos habituais, que paralisam a vontade, até mesmo quando são leves. É observação de São João da Cruz: «que a avezinha esteja presa a um fio delgado ou grosso, pouco importa: não lhe será possível voar, senão depois de o haver quebrado».
794. Utilidades das paixões bem ordenadas. Quando, pelo contrário, estão as paixões bem ordenadas, isto é, orientadas para o bem, moderadas e submetidas à vontade, têm as mais preciosas utilidades, porque são forças vivas ardentes, que nos vêm estimular a atividade da inteligência e da vontade e prestar-lhes desse modo poderoso auxílio.
a) Atuam sobre a inteligência, excitando em nós ardor no trabalho, desejo de conhecer a verdade. Quando um objeto nos apaixona, no bom sentido da palavra, somos todos olhos e ouvidos, para o conhecermos bem, o espírito apreende mais facilmente a verdade, a memória é mais tenaz para o reter. Eis aqui, por exemplo, um inventor animado de ardente patriotismo: vede como trabalha com mais ardor, tenacidade e perspicácia, precisamente porque quer prestar serviço à sua pátria. Do mesmo modo um estudante, sustentado pela nobre ambição de pôr a sua ciência ao serviço dos seus compatriotas, faz mais esforços e chega a resultados mais apreciáveis. Mas sobretudo quem ama apaixonadamente a Jesus Cristo, estuda o Evangelho, com mais entusiasmo, compreende-o e encontra nele maior sabor; as palavras do divino Mestre são para ele oráculos, que inundam a sua alma de luzes deslumbrantes.
795. b) Atuam igualmente sobre a vontade, para a arrastar e decuplar as suas energias: o que se faz com amor faz-se melhor, com mais aplicação, constância, e feliz êxito. Que tentativas não faz o amor de mãe para salvar um filho? Que de atos heróicos inspirados pelo amor da pátria?! Do mesmo modo, quando um santo, está apaixonado de amor de Deus e das almas, não recua diante de nenhum esforço, sacrifício ou humilhação, para salvar os seus irmãos. Não há dúvida que quem impera estes atos de zelo é a vontade, mas a vontade, inspirada, estimulada, sustentada por uma santa paixão. Ora, quando os dois apetites, sensitivo e intelectual, por outros termos, quando o coração e a vontade trabalham na mesma direção e unem as suas forças, os resultados são evidentemente muito mais apreciáveis e duradoiros. Importa, pois, ver como se podem utilizar as paixões.
III. Do bom uso das paixões
Recordando os princípios psicológicos que podem facilitar-nos a tarefa, indicaremos como se resiste às paixões más, como se orientam as paixões para o bem, e como se moderam.
i. Principies psicológicos que se devem utilizar
796. Para dominar as paixões, é preciso antes de tudo, contar com a graça de Deus e, por conseguinte, com a oração e os sacramentos; mas é mister usar também duma tática judiciosa, fundada na psicologia.
a) Qualquer idéia tende a provocar o ato correspondente, mormente se é acompanhada de vivas emoções e fortes convicções.
Assim, pensar no prazer sensível, representando-o vivamente com a imaginação, provoca um desejo e muitas vezes um ato sensual; pelo contrário, pensar em nobres ações, representar-se a si próprio os felizes resultados que produzem, excita o desejo de praticar atos desse gênero. Isto é sobretudo verdade da idéia que não permanece abstrata, fria, incolor, mas que, sendo acompanhada de imagens sensíveis, se torna concreta, viva, e, por isso mesmo, arrebatadora; é nesse sentido que se pode dizer que a idéia é uma força, um primeiro impulso, um começo de ação. Quem desejar, pois, dominar as paixões más, tem que afastar com cuidado qualquer pensamento, qualquer imaginação que represente o prazer mau como atraente; quem, pelo contrário, quiser cultivar as boas paixões ou os bons sentimentos, tem que alimentar em si pensamentos e imagens que mostrem o lado belo do dever e da virtude, tornando essas reflexões, quanto possível, concretas e vivas.
797. b) A influência duma idéia prolonga-se enquanto não é eclipsada por outra idéia mais forte que a suplante; assim, um desejo sensual continua a solicitar a vontade, enquanto não é expulso por um pensamento mais nobre que se apodere da alma. Quem pretende, pois, desembaraçar-se dele, tem que se entregar, por meio duma leitura ou estudo interessante, a uma série de pensamentos totalmente diferentes ou contrários; quem, pelo contrário, quer intensificar um bom desejo, prolonga-o, meditando sobre coisas que o possam alimentar.
c) A influência duma idéia aumenta, associada a outras idéias conexas, que a enriquecem e lhe dão maior amplidão. Assim, o pensamento e desejo de salvar a própria alma torna-se mais intenso e eficaz, se for associado à idéia de trabalhar para salvar a alma dos nossos irmãos, como se vê, por exemplo, em S. Francisco Xavier.
798. d) Enfim, a idéia atinge a máxima potência, quando se torna habitual, absorvente, uma espécie de idéia fixa que inspira todos os pensamentos e todas as ações. É isto o que se nota, sob o aspecto natural, naqueles que não têm senão uma idéia, por exemplo, a de fazer esta ou aquela descoberta; e sob o aspecto sobrenatural, naqueles que se deixam penetrar de tal modo duma máxima evangélica, que esta se torna a regra da sua vida, por exemplo: Vende tudo e dá-o aos pobres; ou: que importa ao homem ganhar o universo, se vem a perder a sua alma; ou ainda: para mim a vida é Cristo.
É necessário, pois, ter a mira em arraigar profundamente na alma algumas idéias diretrizes, dominadoras, absorventes, depois reduzi-las à unidade por meio duma divisa ou máxima, que as concretize e conserve incessantemente presentes ao espírito, por exemplo: Deus meus et omnia! Ad maiorem Dei gloriam! Deus só basta! Quem tem Jesus tem tudo! Esse cum Iesu dulcis paradisus! Com uma divisa destas, será mais fácil triunfar das paixões más e utilizar as boas.
2. Como combater as paixões desordenadas
799. Tanto que a consciência nos adverte que em nossa alma se levanta um movimento desordenado, é necessário apelar para todos os meios naturais e sobrenaturais, para o refrear e dominar.
a) Logo desde o princípio, é mister usar do poder de inibição da vontade, auxiliada pela graça, para travar esse movimento.
Assim, por exemplo, importa evitar os atos ou gestos exteriores, que não podem senão estimular ou intensificar a paixão: quem se sente invadido pela cólera, deve evitar os gestos desordenados, os clamores, calando-se até que volte o sossego. Tratando-se duma afeição demasiadamente viva, devem-se evitar os encontros com a pessoa amada; é preciso fugir de lhe falar e sobretudo de exprimir de qualquer modo, ainda mesmo indireto, a afeição que se sente para com ela. Assim, vai enfraquecendo a paixão pouco a pouco.
800. b) Mais ainda: tratando-se duma paixão de gozo, é necessário esquecer o objeto dessa paixão.
Para o conseguirmos: 1) cumpre-nos aplicar fortemente a imaginação e o espírito a qualquer ocupação honesta que nos possa distrair do objeto amado: por exemplo, o estudo, a solução dum problema, o jogo, o passeio com outros, a conversação, etc. 2) Quando começa a restabelecer-se a paz, é apelar para as reflexões de ordem moral, que possam armar a vontade contra a sedução do prazer; considerações naturais, como os inconvenientes, para o presente e para o futuro duma ligação perigosa, duma amizade demasiado sensível (n. 603); mas sobretudo considerações sobrenaturais, tais como a impossibilidade de avançar na perfeição, enquanto se mantém esses apegos, as cadeias que se forjam, a salvação em perigo, o escândalo que se pode dar, etc. Tratando-se de paixões combativas, como a cólera, o ódio, depois de termos fugido, um momento, para diminuir a paixão, podemos muitas vezes tomar a ofensiva, pondo-nos em frente da dificuldade, convencendo-nos pela razão e sobretudo pela fé que entregar-se ã cólera ou ao ódio é indigno dum homem e dum cristão; que permanecer calmo, senhor de si, é quanto há de mais nobre, digno e conforme ao Evangelho.
801. c) Procurar-se-á, enfim, fazer atos positivos contrários à paixão.
Quem experimentar antipatia para com uma pessoa, procederá como se quisesse ganhar-lhe a simpatia, esforçar-se-á por lhe prestar serviço, ser amável para com ela, e sobretudo orar por ela. Não há nada que abrande o coração como uma oração sincera por um inimigo. Quem, pelo contrário, sente afeição excessiva para com uma pessoa, deve evitar a sua companhia, ou, sendo isso impossível, testemunhar-lhe essa fria cortesia, essa espécie de indiferença que se tem para com o comum dos homens. Estes atos contrários acabam por enfraquecer e fazer desaparecer a paixão, mormente se se sabem cultivar as boas paixões.
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Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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