eikon

eikon - imagem

VIDE


Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não? Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um dinheiro. E ele diz-lhes: De quem é esta efígie (eikon) e esta inscrição? Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. (Mat 22:17-21)

O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem (eikon) e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. (1Co 11:7)

O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial. (1Co 15:47-49)

Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. (2Co 4:4)


La palabra griega eikon es la traducción exacta de la hebrea tselem, ‘imagen’, que aparece en Gen. I, 27. Para G. Scholem, gran especialista en cábala y tradición hebrea (6), tselem correspondería a la daena iraniana. Según un fragmento maniqueo llamado Turfan (7), el tercer día después de la muerte y la víspera antes de atravesar el puente Cinvat, el alma del difunto ve aparecer ante ella, semejante a una joven, a la daena, su imagen, o la encarnación de su fe y de sus buenas acciones. No podemos dejar de relacionar a la daena con el «atuendo resplandeciente» del Canto de la Perla. El fiel es guiado por ésta y luego, unido a ella, penetra en el Paraíso. EL EVANGELIO SEGÚN TOMÁS (external link)

No estudo de Daniélou sobre Gregório de Nissa, uma análise da questão da criação do homem "à imagem e à semelhança de Deus, e o trabalho de restauração da semelhança pra recuperação da imagem, enquanto verdadeira deificação.

São Fócio, patriarca de Constantinopla (+ 891), traduz o espírito da tradição patrística ao dizer: "Deus, em seu parecer pré-eterno, decide depositar no homem o logos para que o homem aborde, em sua própria estrutura, o enigma da teologia". Por sua criação à imagem do Deus uno e trino, o homem coloca-se como vivo enigma teológico; torna-se o lugar teológico por excelência. Paul Evdokimov (A mulher e a salvação do mundo)

É para manifestar o caráter dinâmico da aquisição das virtudes e da deificação, que a maior parte dos Padres, diferentemente de Gregório de Nissa, distinguem a imagem e a semelhança. Segundo esta distinção, a imagem de Deus no homem define o conjunto das possibilidades de realizar a semelhança, a potencialidade da semelhança a Deus, ao passo que a semelhança, que é constituída pela realização da imagem, consiste no desabrochar desta conforme sua natureza integral, reside na realização de sua perfeição. Enquanto a imagem é atual, a semelhança é virtual, ela é a realizar pela livre participação do homem na graça deificadora de Deus. Assim Basílio o Grande explica: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”: possuímos por uma pela criação, adquirimos a outra pela vontade. Na primeira estrutura nos é dado ser nascidos à imagem de Deus; pela vontade se forma em nós o ser à semelhança de Deus. O que decorre da vontade, nossa natureza o possui em potência, mas é pela ação que nós a buscamos. Se em nos cirando, o Senhor não tomou de antemão a precaução de dizer “façamos” e “a nossa semelhança”, se não nos tivesse gratificado pelo poder de se tornar à semelhança, não é por nosso poder próprio que adquiriremos a semelhança de Deus. Mas eis que ele nos criou em potência capazes de semelhança a Deus. Em nos dando a potência de semelhança a Deus, permitiu que fossemos artesãos da semelhança a Deus, a fim de que nos venha a recompensa de nosso trabalho, a fim de que não sejamos como estes objetos saídos da mão do pintor, objetos inertes, a fim de que o resultado de nossa semelhança não se volte ao louvor de um outro. Com efeito, quando vês um retrato exatamente conforme ao modelo, tu não louvas o retrato, mas admiras o pintor. Assim sendo, a fim de que seja eu o objeto de admiração e não um outro, me deixou o cuidado de se tornar à semelhança de Deus. Com efeito, pela imagem possuo o ser razoável, e me torno à semelhança em me tornando cristão” (Homilias sobre a origem do homem, I). Gregório de Nazianzo explica de maneira similar a necessária participação do homem na aquisição do dom que Deus lhe faz: assim, escreve ele, “a alma possuirá o objeto de sua esperança como preço de sua virtude, e não tão somente como um dom de Deus. Eis bem aí o aportar a bondade a sua plenitude de modo que o bem seja nossa propriedade. Um bem que não é somente uma semente confiada à natureza, mas que é também o objeto de uma cultura que depende de nossa vontade” (Discursos II). (Jean-Claude Larchet)

Perenialistas


Leituras

  • Evdokimov Imago Dei
  • Thomas Merton
    • Os Padres da Igreja interpretam a criação do homem à "imagem de Deus" como prova de que ele é capaz de inocência paradisíaca e contemplação — e que aí está, em realidade, o porquê de sua criação. O homem foi feito para que, em seu vazio e na pureza de seu coração, pudesse refletir a pureza e a liberdade do Deus invisível e unir-se assim perfeitamente com Ele. Mas a reaquisição deste paraíso sempre oculto dentro de nós, ao menos como uma possibilidade, é algo que apresenta grande dificuldade prática. O Gênese nos conta como no caminho de volta ao paraíso há um anjo com uma espada chamejante "voltada para todos os lados", que nos impede o acesso. Entretanto, não significa isso que a volta seja algo de absolutamente impossível. Diz Santo Ambrósio: "Todos os que desejam voltar ao paraíso têm de ser provados pelo fogo". (Oportet omnes per ignem probari quicumque ad paradisum redire desiderant. In Psalmum 118, XX, 12. Citado por Stolz, pg. 32). O caminho do conhecimento à inocência ou pureza do coração é um caminho de tentação e luta. E uma questão de pelejar contra dificuldades máximas e vencer obstáculos que parecem, e em realidade são, superiores à força humana. Zen e as Aves de Rapina

Manuel João Ramos

Excertos de "Mitologia Cristã"
Certas temáticas teológicas dualistas, caras ao gnosticismo helênico assim como às tradições sírias e iranianas, valorizam a referência às noções de «invólucro», de «espelho» e de «imagem» no âmbito particular de uma ontologia mística. O recurso a esta literatura permitirá, adicionalmente, circunscrever os contornos que envolvem a figura, quase tutelar nessas tradições, do apóstolo Tomé, e a sua associação com o Preste João, tal como é expressa na Carta.

No logion 84 do Evangelho segundo Tomé, que segundo Henri-Charles Puech constitui uma das passagens mais enigmáticas e fundamentais do texto (Puech, 1978, II:111-112), está escrito: «Jesus disse: vendo a vossa aparência, vós alegrai-vos. Mas vendo as vossas imagens («enhikon»)1, produzidas antes de vós, que não morrem nem se manifestam, muito será o que suportareis» (Puech, 1978, II:23). Evocado o pessimismo do dualismo gnóstico e as ligações e divergências entre a Gnose e o neoplatonismo (Puech, 1978, I:55 segs., 83 segs.), Puech propõe interpretar este aforismo, em confronto com o logion 19 («feliz o que foi antes de o ser; aquele que conhecer as cinco árvores do Paraíso2 não conhecerá a morte»), nos termos seguintes: «(...) o eikon particular de cada Espiritual (individual) é a «imagem» eterna e pré-existente deste: ela é ele próprio tal como era originalmente, no seu princípio, antes da sua aparição no mundo, ele — arriscar-nos-íamos a escrever — tal como pré-existia a si próprio, a sua pessoa inteligível, integral, verdadeira, anterior ao personagem de quem, revestido de carne, ele tomou e conserva atualmente a aparência» (Puech, 1978, II:114)3.

No contexto específico do Evangelho, uma dialética ontológica assente sobre a oposição Corpo (corruptível) / Espírito (eterno), sugere a necessidade de conhecer e sofrer a corrupção exterior para a poder negar (renunciando a ela): «Jesus disse: aquele que conheceu o mundo encontrou o corpo, e o mundo não é digno daquele que encontrou o corpo» (logion 80) 4. Porque «o Reino (de Deus) está no interior de vós e no exterior de vós» e porque «quando vós vos conhecerdes sereis conhecidos (por Deus)» (logion 3), este conhecimento é em si condição para a união dos termos contrários (Interior/Exterior, Eu/Outro, Espírito/Corpo, Homem/Divindade). O indivíduo, ao ver a sua alma imortal, ao ver as «imagens» (logion 84) ou ao ouvir as «palavras» escondidas (logia 13 e 108), e ao encontrar-se a si próprio (logion 111), tornar-se-á um com Deus (logion 108), isto é, tornar-se-á «estranho» ao mundo corruptível e à morte (logia 19 e 111).

Consultas


NOTAS


1. Jean Doresse traduz o termo copta enhikôn (= gr. eikon, pl. eikones) por modelos, não por imagens (Doresse, 1988:102).
2. As cinco árvores da vida ou os cinco elementos da natureza luminosa-espiritual (gr. nous); ver Puech, 1978, II:101.
3. Nos fundamentos da doutrina gnóstica do docetismo está a ideia de que a aparência física, carnal, do «salvador divino», não é mais que uma ilusão de óptica (gr. dokesis, «aparência»); através da gnose (do conhecimento místico), Cristo pode ser percebido como puro espírito (Chadwick, 1988:35), que vem a este mundo como um Salvador-fantasma, não incarnando verdadeiramente (Puech, 1978,1:265-266).
4. Trata-se da elaboração de uma passagem comum a pelo menos três evangelhos canônicos: «Quem achar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, acha-la-á» (Mateus, X, 39; ver também Lucas, X, 40 e João, XII, 25).


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Responsável

Murilo Cardoso de Castro Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)

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